um blog de inspirações e expirações

7.2.13

cabeça-ponteiro



daqui

Sou uma velha de 163 anos e nenhum gato, o que equivale a alguns graus acima de solitária. Tá ok, não tenho 163, tenho 21, mas é como se fossem 163 porque as costas metafóricas doem de um jeito muito absurdo, culpa de toda a carga vital das pessoas com quem já convivi, as que já amei, as que detestei por algumas horas – porque sou piedosamente incapaz de guardar rancores – ou as que simplesmente vi na rua um dia, de passagem, e que não mudaram em nada a minha vida, a não ser aumentar um pouco a minha carga vital de outros. Me sinto mesmo uma velha doente, que não tem um pingo de vontade de levantar de onde quer que eu esteja ancorada. Talvez eu tenha um problema psicológico ou algo assim, que se reflete nas minhas costas imaginárias...

Tá, tá, tenho um problemão psicológico que se reflete nas minhas costas imaginárias. Eu só não sei lidar com ele. Não sei chorar por causa dele e não sei fazer piada sobre ele. Eu só sei ficar frustrada por não saber como resolver. Então ele simplesmente fica encalhado como uma baleia grande e gorda que tem a autoestima tão definida que esquece o próprio tamanho e resolve nadar na água rasa. Aí chegam os bombeiros, a marinha, a guarda costeira, os banhistas, os transeuntes aleatórios e os vendedores de picolé. Os três últimos para curiosar e os três primeiros para cumprir seu trabalho, que fracassa, e a partir disso são todos plateia da grande baleia psicológica encalhada nas areias de mim mesma.


Distraídas, as pás giravam, pág. 67.

15 comentários:

  1. Nossa, faz tipo tri tempos que eu não entro aqui...

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  2. Já encontrei pessoas sensíveis assim na vida. Parece que são de cristal e já já se quebram por causa dos sofrimentos do mundo..

    Algumas vezes me sinto assim, mas sem a parte do cristal. Me sinto uma florzinha no asfalto quente.. :P

    ;**

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  3. Problemão psicológico que se reflete em suas costas... Já o meu se reflete em todos os cantos da minha vida. Sono, humor, amizades, amor.... Também fico frustrada de não conseguir entender o porquê me sinto tão presa nessa vidinha e nem consigo sair do lugar.
    Adorei o texto.
    Beijoooos

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  4. Também sou péssima em guardar rancor. Quando vejo eles já foram embora de mim. Acho bom na maior parte do tempo.

    É terrível não saber como resolver problemas, mas é certo que o início sempre vai dentro da gente. Nem que seja como uma intuição destrambelhada e desmedida.

    beijoca

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  5. que post gostoso de lindo! me fez lembrar momentos nunca esquecidos da minha querida oitava c. e você sabe que até hoje escrevo meus diários. sim, fora daqui, num caderninho de folhas amarelas e de caneta preta sempre. ultimamente tem tido mais dramas do que relatos mas a bem verdade é que o objetivo é sempre o mesmo e me parece o seu: não me esquecer de mim.

    beijo

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  6. Gata, esse ultimo comentário é pra outro blog... fiz confusão aqui!

    Beijoca

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  7. Eu sou bem triste com isso sabe? Quando tenho um problema sempre tenho que ter alguém do lado pra me dar segurança.. é errado, eu sei, mas como mudar isso? Sai pra lá insegurança...

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  8. Quisera eu não guardar rancor, acho que faço isso bem até demais! O que, sem dúvidas, acaba me prejudicando. Assim, fico tentando esquecer as coisas, mas elas sempre volta. E que final, hein? "(...) grande baleia psicológica encalhada nas areias de mim mesma." Adorei a comparação!

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  9. Me identifiquei com isso, só que eu tenho 21 anos e 1 gato!

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  10. Que texto lindo D:

    Lindo por ser bem escrito e usar metáforas ótimas, ainda mais lindo por eu ter me identificado tanto com esse texto. E o peso todo de uma vida que nem vivi por estar presa, todo nas minhas costas. Sou velha para todo mundo que eu conheça.

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  11. PS: notei agora "Distraídas, as pás giravam, pág. 67." é de algum livro de sua autoria?

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  12. Apesar de ser um texto bem denso, devo dizer algo bobo mas que lembrei aqui: ao ler a palavra 'vital' lembrei de um episódio do Pica-Pau em que um carinha ficava repetindo algo como "aqui, nesta indústria vital". GENTY, minha mente trabalha de uma forma muito maluca às vezes, hahaha!

    Tá.
    Falando do texto mesmo: me identifiquei pacas (jura, Mia? de novo, Mia? conte-me uma novidade, Mia!), ainda mais com isso de não conseguir guardar rancor. GENTY, eu simplesmente não consigo. Pessoas me aprontam, me tentam fazer de boba, fazem mil coisas e basta um "I'm sorry" que tá tudo certo, bola pra frente. Mas isso pode fazer com que fiquemos bem danificadas, porque o emocional fica bem ferrado nessas horas.

    Mais um lindo texto, Gabi.
    Kissu ;*

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  13. He, queria eu não guardar rancor. Costumava ser assim também. Tou com inveja de você, confesso.

    Ei, que imagem curiosa. Adorei.

    Às vezes me sinto bem velha também. Enraizada na minha cama, ou no meu trabalho, minhas relações. Estagnada. Sem muita vontade de modificar a realidade. Mas não sei, não senti identificação. Nossos problemas psicológicos são distintos, talvez só se cruzem nesse sentimento de solidão. Fiquei confusa, ai.

    Enfim, Gabriela, linda, você gostaria de responder a um meme? Indiquei você :3

    Beijo :B

    http://escrevacarlaescreva.blogspot.com.br/2013/02/meme-7-coisas.html

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  14. Sempre há esses problemas muito nossos que não sabemos bem se têm solução ou mesmo se precisam ser consertados. Tem coisa com a qual a gente conviveu tanto tempo que termina sendo estranho se desfazer. Sei lá.

    Sou o contrário de você na questão rancor. O que, provavelmente, significa que eu tenho o dobro da sua idade psicológica, porque esse negócio de rancor deve envelhecer pra cacete.


    Saudades daqui! <3

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