um blog de inspirações e expirações

6.12.12

quem vive embaixo de uma burca?

daqui
Furando a fila dos três livros que já estou lendo, comecei a ler A cidade do sol, de Khaled Hosseini, mesmo autor que escreveu o embasbacante O caçador de pipas. Eu não sei que dom divino é esse que o tal Khaled tem de me deixar sempre com a sensação de ter sido esmurrada na cara e empurrada nardonicamente janela abaixo. Os livros dele sempre me caem como uma surra. Quando li O caçador de pipas, cansei de chorar e sentir pena daqueles meninos, porque não dava para sentir outra coisa, não cabia nenhum outro sentimento. Talvez coubesse raiva por tanta crueldade lida, mas era só um livro, eu só precisava me acalmar. Só que agora não dá para me acalmar. Não dá, simplesmente não dá! A indignação sobe esôfago acima, querendo sair de qualquer jeito: dessa vez não é só um livro, é real. Aquelas mulheres ainda estão lá vivendo uma vida torta, errada e cruel. Cruel nunca vai deixar de ser a palavra certa. 

A cidade do sol conta a historia de Mariam e Laila, duas mulheres de idades diferentes, que tiveram nascimentos diferentes e infâncias diferentes, mas que acabaram no mesmo destino sórdido. Nem terminei de ler o livro ainda, estou pouco a frente da metade, mas eu precisava parar para respirar. Não é só um livro. Aquilo foi real, e ainda é real, embora o Talibã tenha caído no começo dos anos 2000, a cultura permaneceu (não sei se dá para denominar cultura): as mulheres ainda são subjugadas, ainda andam acompanhadas de homens nas ruas, vestidas com as burcas; mesmo que não sejam mais obrigatórios, os costumes permanecem. O livro se passa num decorrer de tempo que se inicia no final dos anos 70, com a infância de Mariam e – até agora – vai à metade dos anos 90 (começo do Talibã e da obrigatoriedade desse jeito de viver tão avesso aos nossos olhos ocidentais), entrelaçada com a vida de Laila, só uma criança que Mariam viu crescer. É um livro tão cru que até dói. A gente meio que demora para engolir e assimilar, custa a crer que é verdade e que as mulheres no Afeganistão ainda vivem da mesma forma. Século XXI, você é uma piada! 

Fui dar uma olhada na internet, para ver se achava alguma coisa sobre a vida atual no Afeganistão – quem sabe encontrasse um pouco de alívio – e achei essa matéria no site da Veja, de 2010, que jogou por terra essa pequena esperança que eu tinha de que talvez a mulher lá tivesse enfim virado “pessoa”, mas além de jogar por terra, a matéria sapateou em cima disso. Tudo continua igual ao que o livro descreve. Absurdamente igual. E eu fico aqui indignada e impotente, que raios eu posso fazer além de vomitar esse texto? Eu não tenho poder nenhum sobre a vida das pessoas que vivem lá, num dos piores países para se nascer. No livro, há uma passagem sobre as condições da saúde para a mulher nos anos 90. Explica que a maioria dos hospitais foi destinado ao atendimento dos homens e o único que atendia mulheres não tinha luz, portanto, não espere que tivesse equipamentos ou condições para propiciar um atendimento digno. Era uma perfeita bagunça, com mulheres em trabalho de parto, outras machucadas, reclamando e brigando “pela vez” umas com as outras. Preciso spoilear essa parte da historia, preciso dizer o quanto fiquei chocada ao ler que o bebê de Laila precisava de uma cesariana porque estava sentado e não tinha como nascer normalmente, e que o hospital não tinha anestésico: 

“- Coragem, irmãzinha – disse a médica, inclinando-se sobre o corpo da moça.
Os olhos de Laila se arregalaram. Depois, sua boca se abriu. Ela ficou assim por um bom tempo, tremendo, com os tendões do pescoço esticados, o suor lhe escorrendo pelo rosto, as mãos apertando as de Mariam.
E Mariam a admiraria para sempre, pelo tempo que transcorreu antes que ela gritasse.” 

E não só a dor sentida, mas os riscos de complicações, de infecções, transmissão de doenças... É inacreditável de tão absurdo. 

Então é isso: as mulheres tinham essa vida avessa nos anos 90, e continuam tendo até hoje. Ainda se casam adolescentes com maridos escolhidos pela família, tantas vezes mais velhos. Em lugares públicos, há uma área destinada às mulheres, para que não fiquem misturadas aos homens. Agora elas podem estudar, mas as poucas que estudam vêem escolas serem atacadas. Sem falar nos espancamentos, nas mulheres que tentam se suicidar (ateando fogo nelas mesmas. Apesar de tudo, são corajosas até nessa hora)... Não mudou muita coisa enfim. Não há muita diferença entre a vida que se passa no livro e a vida que elas ainda vivem, embora mais amena. 

E eu aqui, na minha vida ocidental, com meus problemas ocidentais – que não são menos problemas por isso, mas que quando comparados aos daquelas mulheres soam um pouco ridículos. Dizer que vivemos no século XXI, com toda essa tecnologia e esse avanço de vida perde o pouco o sentido da expressão, com toda essa gente no mundo que vive em lugares parados no tempo, com tanta injustiça e falta de humanidade. O ser humano já andou tanto ao longo dos tempos, mas parece que continua parado. Eu espero verdadeiramente que ele comece logo a andar, e que essa horda de preconceito e desigualdade humanitária (social nem cabe) acabe logo. E que as mulheres sejam cada vez mais livres, cada vez mais donas de si. 

Faltam cerca de cem páginas para o fim do livro e eu não quero nem saber de que tamanho vai ficar a minha indignação.

14 comentários:

  1. Eu me senti exatamente assim quando li esse livro, uns anos atrás. Indignada, arrasada, chocada e impotente. Eu nunca mais deixei de acompanhar a vida das mulheres no oriente através de notícias, nunca mais ignorei um e-mail pedindo assinaturas, nunca mais pensei igual. Esse é um livro que mexe muito com a gente. Nunca li O Caçador de Pipas, nao tive coragem depois desse. Mas A Cidade do Sol me deixou com o mesmo nó na gargante que me deixou o "Muito longe de casa", do Ishmael Beah (LEIA.). Difícil mas necessário. Eu me modifiquei com essas leituras, esse conhecimento do outro. Que é que podemos fazer, Gabi? Vamos aproveitar as nossas oportunidades e a nossa voz, as mesmas que elas não têm. Cedo ou tarde alguém nos escuta. Esperança, Gabi. Abracinho forte de pós-livro. Bejo =*

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  2. Ele é muito bom mesmo! Li no comecinho do ano tbm, é emocionante...

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  3. O ser humano ainda tem muito o que evoluir...
    Beijo.

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  4. Guria, "sangue no zóio e faca nos dente" é o que eu tenho a dizer sobre esse livro. Só de pensar nele eu fico extremamente indignada. Não me cabe que pessoas vivam assim, não me cabe esse sofrimento, esse tipo de problemas, esse absurdo completo. Esse livro eu amei. Devorei. Virei madrugada com ele, e ele me fez muito, muito mal. Você não perde por esperar o que tem nas próximas páginas.. E a última frase dele é uma das mais lindas de todas as últimas frases do mundo.

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  5. Li O Caçador de Pipas há um tempo, não fazendo a menor ideia de que toda aquela história densa me viria pela frente. Me apaixonei e chorei. Aí então me deparei com A Cidade Do Sol, mas não passei das dez primeiras páginas (o livro não era meu).

    É indignante, parece não fazer parte do mesmo mundo que nós vivemos, não é cabível.

    Cê já leu Persépolis? Recomendo muito. É uma autobiografia em quadrinhos contando toda a vida da autora nesse período de transição (de começar a usar a burca e tal).

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  6. Eu devo ter lido esse livro há uns quatro anos e foi exatamente assim que me senti. Todo o avanço pareceu tão pouco. E aí de repente parece crueldade nós reclamarmos da vida. De qualquer coisa.

    Podia ser pior. Poderíamos ter nascido lá.

    Mas eu lembro que tem uma reviravolta muito grande, então acho que dá para ter alguma esperança, mesmo não me lembrando exatamente sobre o que.

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  7. Bem expressivo e revoltado o seu texto. Nunca li o livro mas sei que pelo o que você disse realmente deve ser chocante. Já ouvi muitas histórias sobre essa cultura nas minhas aulas de geografia. E sim, é muito cruel. Não são donas da própria vida. Vemos mulheres conseguindo coisas que antigamente não conheciam. Hoje temos uma mulher no comando do país e a poucos dias soube de uma que conseguiu uma das patentes mais altas da marinha. Ficamos orgulhosas e tal, mas depois que paramos pra pensar, vemos que não é todos os lugares que as coisas estão assim. E que ainda existe muita crueldade envolvendo a vida feminina.
    Adorei o post. Vou tentar ler esse livro.
    Beijos

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  8. Ganhei esse livro de aniversário esse mês e já estou imaginando o tanto que irei chorar e ficar indignada. Já li "O caçador de pipas" e gostei do jeito que o autor escreve.
    Nenhum ser vivo deveria viver do jeito que essas mulheres vivem, oprimidas e ainda torturadas. É muito ruim pensar que não tem muita coisa que podemos fazer sobre isso.

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  9. Gabi, quando ver esse recado, entra no msn? Tem uns detalhes que precisam ser corrigidos no meu blog, olha lá.

    Bjoss

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  10. Enquanto lia O Caçador de Pipas eu só chorava e sofria. Tinha que parar a leitura pra tomar um fôlego também, pq sou facilmente impressionável. Ficava dias a fio relembrando as passagens do livro e me remoendo, tentando manter na cabeça de que era só uma história de ficção. Mas, mesmo assim, impossível não ficar abalada com a história dos meninos. Acho que se eu for ler esse, minhas reações serão de iguais a pior! =/

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  11. Incrível como é uma maravilha me debruçar na leitura do teu blog. É algo que, além de ter um bom gosto, é super revigorante e inspirador.

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  12. Oii Gabi, que bom que viu meu post :)
    Bom, arrumei lá a configuração, obrigada, de novo !!
    Não te respondi pois estava na cozinha .. Bjoos

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  13. Gabi,
    esse livro é um dedo dentro de nossas feridas. Como é difícil ser mulher não??
    Quão impotente podemos ser quando se trata de nossas vidas?
    Eu sou apaixonada pela Marian. Acho que ela é o personagem mais fantástico do Hussein.
    A Laila tem ainda alguns atenuantes na história. Um pai muito bom, uma história de amor que a consola. E a Mariam? Nunca querida, sempre uma bagagem indesejável na vida dos outros. Massacrada, objetificada. E ainda assim tão forte, tão serena. Sinto que não só em países sob influência do Talibã, mas em todos os lugares, inclusive aqui no Brasil, onde mulheres são coisas, há tantas e tantas Marians.
    E isso me deixa revoltada! E ao mesmo esperançosa por pensar que existem Malalas onde as Marians são silenciadas.

    Esse é o trabalho que cabe a todos nós, a nós mulheres. Não podemos deixar de gritar. Nosso grito é nossa arma de poder contra os sistemas religiosos e filosóficos fundados num machismo e num patriarcalismo hediondo.

    Outro livro fantástico sobre as mulheres afegãs é O livreiro de Cabul.

    Beijo, sua indignação bate em nós aqui.

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  14. A gente muda depois de um tapa na cara desse. Acho que pelo menos isso você já fez: mudar. Ser melhor do que antes. Ser menos alienada a esses problemas tão chocantes. E aí dá pra a gente fazer a mudança aqui mesmo, no ocidente. Se destacar como mulher, para algum dia, quem sabe, conseguir impactar lá no Afeganistão.

    :T

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