um blog de inspirações e expirações

4.12.12

linha de pipa

daqui


Lia das Linhas tinha no quintal de casa uma árvore que derrubava sete pipas sem rabiola todos os dias. Ela pendurava na parede de fora as que gostava mais, o resto se desmanchava até virar solo ou eram levadas por crianças puladoras de muros de quintal. Era uma árvore querida pela dona e pela rua inteira, quase principalmente pelas crianças puladoras de muros de quintal. Era uma pena que não vinham também as caudas, ficava sendo um produto meio infeliz assim pela metade, mas nada que diminuísse a beleza do constante acontecimento. Talvez fosse única no mundo, quer dizer, onde já se ouviu falar de um pé de pipas? 

Lia das Linhas morava sozinha num três cômodos de seis janelas de madeira branca e guardava numa caixa de bolinhas sua coleção de ingressos de cinema. Tinha bonecas de feltro espalhadas nos nichos das estantes misturadas aos livros e todas as suas cadeiras eram diferentes umas das outras. O sofá era macio, cinza, sem almofadas e haviam quatro abajures na sala que nunca eram ligados. Trabalhava na Ombros de Gigantes, uma fábrica de cabides e gostava do que fazia e de onde morava, mas sentia uma meia infelicidade, assim pela metade como se a vida fosse uma rabiola sem pipa. Chegou a listar as possíveis razões: 


1. A falta de rabiolas das pipas. Mas depois descartou essa possibilidade porque se ela já era única no mundo dona de uma árvore de pipas, não exigiria tanto mais por uma cauda de fitas que é mais fácil de fazer do que uma pipa inteira. 
2. Não poder ir mais vezes ao cinema na semana por precisar ir trabalhar, mas também descartou por que 
3. Gostava de trabalhar na fábrica de cabides e honestamente, não tinha do que reclamar. Ganhava o suficiente para ela, para a casa, para a comida e para as idas ao cinema. 

Um dia teve um estalo e pensou que sentia essa meia infelicidade porque nunca na sua vida de rabiola sem pipa havia criado um cachorrinho. Nem um peixe. Nem um passarinho. Nem um gato. Nem uma iguana. Nem uma cobra chamada Iguana. Nem uma caixa de fósforos para fazer às vezes. Quando era criança nunca pode ter um bicho, porque o pai não gostava de bichos, então sempre teve livros e TV. E assim cresceu, sem sentir saudade de uma dessas necessidades vivas de criança que precisam ser limpas, alimentadas e levadas para passear. Era solidão seu mal, mas nem sabia. Então vivia e seguia vivendo, vezenquando fazendo outras listas de Possíveis Razões, baseada nos acontecimentos que se sucediam. Sempre acabava descartando as listas antigas, mas as mantinha arquivadas num fichário especialmente reservado para tal. 

Era solidão mesmo porque não tinha nem cachorro, ia ter amigos? Tinha algumas pessoas conhecidas que trabalhavam com ela na Ombros de Gigantes que às vezes a convidavam para almoçar, como o Beto Pilastra (na verdade era Alberto Cardoso: Beto por apelido, Pilastra por tamanho) e a Aninha Violeta, que era uma graça. Mas amigo amigo mesmo, não tinha não. Nem um daqueles amores românticos. Sempre quis tanto ter alguém para dormir junto, para pregar o pé gelado no meio das costas, debaixo das cobertas. Alguém para ajudar a escolher as novas pipas que seriam penduradas. Na verdade, podia ser alguém que nem gostasse mesmo muito de pipas...


to be continued?

7 comentários:

  1. Seus textos são tão encantadores,você pretende publica-loa? É realmente uma pena o preços das passagens.
    E sim, sou eu, é sempre um parto para eu sair nas fotos, sempre me achei tão estranha hahha beijinhos.

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  2. Amei o texto e a foto ilustrativa também!
    Sem dúvida futuramente publica um livro sim, seus contos/crônicas são maravilhosos e daria uma ótima edição ou duas, três... Já pensou na capa do livro; 187 Tons de Frio - Contos e Crônicas-
    BjoO linda!

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  3. Gostei do texto, aguardo continuação :)
    bjus ;*

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  4. Pipas precisam de rabiolas assim como pessoas precisam de outras pessoas. E vivemos tentando negar isso.

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  5. e eu que já guardei tantos ingressos de cinema. bem legal.

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