um blog de inspirações e expirações

5.8.12

não instiga e surpreende


"Muitas vezes ficava arrasado diante da dignidade de outras pessoas que também não tinham quase nada; em alguns momentos, sentia a bondade delas com tamanha intensidade que pensava que aquilo fosse destruir algum delicado órgão interno seu."
in: O desjejum da viúva


À primeira vista, sem analisar, pensei que seria mais um livro sobre histórias de terror, do tipo Necrópole, but not. Na verdade, Fantasmas do Século XX foi uma maravilhosa surpresa, apesar desse título ruim. Porque sim, é um título ruim que engana e faz você desmerecer a obra. (Por você, leia eu.) Demorei muito para começar a lê-lo e quando finalmente comecei, quase desisti: a impressão que me deu é que a insipidez do título tinha se prolongado para os contos, mas felizmente logo depois do início do primeiro – com um título também insosso: O melhor do novo horror – essa impressão passou.  São 15 contos + um bônus:

O melhor do novo horror - embora demore um pouco para pegar no tranco, se mostra uma história até interessante, relatando o que para mim quer dizer que alguns seres humanos são estranhos e diabólicos e não há nada que se possa fazer contra a natureza dessas pessoas. Eddie Carroll vai até a casa de um escritor de historias de terror e, olha, seria melhor ter ido ver o filme do Pelé.

Fantasma do século XX - o conto que dá nome ao livro se passa num cinema, cuja protagonista é uma garota um tanto quanto peculiar. Esse conto me confundiu um pouco e eu me perdi em algumas partes, porque o autor meio que escreveu “um conto recortado”, ora falando da menina, ora falando do rapaz que trabalhava no cinema, indo para o passado e para futuro. Como disse Millôr Fernandes: quando alguém pergunta ao autor o que este quis dizer, é porque um dos dois é burro. Fica dito que sou eu, afinal esse texto é para dizer o quanto gostei do livro, certo?

Pop Art - é conto que mais gostei. Fala de um garoto inflável. É, inflável, daqueles que murcha quando é furado. É uma historia incrível e cheia de sensibilidade e que se aplica perfeitamente à vida real. O ‘menino inflável’ foi só um personagem metáfora para as pessoas infláveis de verdade que sofrem e sentem e passam pelas mesmas coisas que o personagem. Para completar o encanto, veja que final incrível:

“Certa tarde, contei a ela sobre Art.
‘QUE HISTÓRIA MAIS TRISTE. EU SINTO MUITO.’
Ela escreveu isso com lápis de cera e pôs a mão por cima da minha.
‘O QUE HOUVE? ELE FICOU SEM AR?’
— Não. Ficou sem céu — respondi.”

Talvez não soe tão incrível se você não leu o texto inteiro, mas eu não vou contar o que aconteceu com o Art (o menino inflável), jurei nunca mais spoilear por aqui. Portanto leia, e mesmo que não leia o resto do livro, esse conto é obrigatório.

Vocês irão ouvir o canto do gafanhoto - começa com Kafka e termina com maconha estragada (fumada pelo autor). Esse conto é bizarro, bizarro, bizarro e macabro. Um garoto se transforma num gafanhoto “de tamanho natural” e daí em diante é só barbárie, caixão e vela preta. Os acontecimentos são tensos. Fiz careta lendo, confesso.

Os meninos de Abraham - parece um conto sóbrio no início, mas depois a gente percebe que não há contos sóbrios nesse livro. Conta a historia de um pai, seus dois filhos e o que eu acredito que sejam vampiros (uma coisa que não ficou exatamente clara na minha cabeça). Tem um final meio inesperado.

Melhor do que lá em casa - esse, para mim, não tem fundamento. Parece que não faz parte do livro, como se não combinasse. É a historia de um garoto, filho de um jogador de beisebol e não acontecesse nada, por assim dizer, é mais um relato do convívio entre os dois.

O telefone preto - é dos mais normais, viu? Poderia ser um filme de ação tranquilamente. Um garoto é sequestrado por um cara vestido de palhaço e recebe ajuda "do além" (além esse já velho amigo do palhaço) através um telefone preto, daqueles bem antigos onde o fone tem formato de cone, sabe?

Encurralado - outra historia que começa azul e termina amarela. Fiquei achando que o conto girava em torno da garota, mas no fim o ponto alto é mãe desequilibrada e perversa, porque nada justifica o que a demônia fez. E até agora não sei se o conto termina num happy end ou não.

A capa - fala de pessoas com dons. Ou objetos com dons que resolvem adotar uma pessoa. E sobre como você precisa ter muito cuidado e tato quando for chutar alguém da sua vida, porque esse alguém pode ter sido uma criança legal, mas depois cresceu e ficou meio despirocado das ideias e o que esse alguém vai fazer é se vingar de você. Parece um conto sobre a infância de quedas não acontecidas de árvores, mas no fim as crianças crescem, não é mesmo?

Último suspiro - é irreal, porém genial. Seria ótimo ter uma espécie de museu onde nos pudéssemos ouvir o ultimo suspiro de uma pessoa, hein? E que tal fazer parte do acervo também? Afinal, nunca se sabe quando um carro dirigido por um cara com um chapéu coco vai aparecer do nada.

Madeira morta - um texto bem curtinho que trata de árvores. Mas não árvores comuns, e sim fantasmas de árvores. Promissor, não?

O desjejum da viúva - quando eu li esse título achei que seria a historia de uma viúva canibal ou alguma coisa assim, mas à medida que fui lendo, mudei de ideia até mudar de ideia novamente no final. Apesar de não se dito com todas as palavras, existem as entrelinhas, hã? Destaque para as filhas da viúva brincando de enterro.

Bobby Conroy volta dos mortos - um dos poucos onde não acontece nada irreal, poderia mesmo ser uma comédia romântica: um ator fracassado volta para sua terra natal e encontra uma antiga namorada numa lanchonete e. Poderia mesmo ser uma comédia romântica.

A máscara do meu pai - nada excepcionalmente esquisito, mas também não é o conto mais claro do livro. Até agora não entendi que eram aquelas pessoas. Uma família – pai, mãe e filho – vai passear/se esconder na cabana/casa de veraneio/seja lá o que for que é repleta de máscaras por todos os lados.

Internação voluntária - meu segundo conto favorito do livro. É a historia do irmão de um autista (ao menos eu entendi que ele é um autista) que gosta de construir fortes e castelos com caixas no porão da casa. Só que essas construções são um pouco mais que simples construções feitas de papelão.

A máquina de escrever de Cherazade - o bônus, que vem depois dos agradecimentos. É a historia de um escritor póstumo. Mas nada parecido com Braz Cubas, não se deixe enganar. É só uma máquina de escrever, ora bolas.

É um ótimo livro, e apesar de ser feito de contos não é curto como muitos por aí. Me podei o texto inteiro para não entregar as partes importantes das historias, e creio que consegui: em alguns momentos nem eu mesma sei do que eu estava falando (bancando a loca agora). Fica a dica de uma maravilhosa leitura: Fantasmas do Século XX, de Joe Hill.

7 comentários:

  1. A história de Art é sem dúvida a mais fofinha de todas.
    Já tinha lido o livro no começo do ano e posso afirmar, é um dos melhores que envolve suspense e terror.

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  2. ui, a sério? tenho de procurar vídeos no youtube sobre esse :b

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  3. haha Adoro dicas de leitura, mesmo se vc disse que era péssimo eu o leria, pois tenho que comprova por mim mesma quão bom ou ruim é um livro! ;)

    Beijos

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  4. Olá,estou sorteando um livro do pequeno príncipe lá no blog (:
    http://www.carollices.com/2012/08/quer-ganhar-um-livro-do-pequeno-principe.html

    Bjs!

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  5. Se eu fosse pelo título também não ia me interessar, mas agora lendo o post, fica bem mais interessante e dá vontade de conferir!
    bjoks

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  6. quer dizer que é uma coletânea de contos... ou melhor,uma coletânea de contos de terror \o/
    Emilie Escreve

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  7. Eu li esse livro pelo pc (odeio ler pelo pc, mas...) e chorei muito com a história do Art, hahaha.

    Pretendo comprar esse livro um dia. ;)

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