um blog de inspirações e expirações

17.6.12

a leveza das transformações drásticas


A gente não sabe que quando se dá se perde dentro do outro. Talvez saiba. Mas olha... É que quando a gente se dá a gente perde um pedaço de cada vez. Começa com filepas das orelhas e os dedos diminuem de altura. São bem imperceptíveis, não adianta examinar seus dedos e começar a medir suas orelhas se estiver apaixonadinho aí: a gente não repara mesmo. Depois de um tempo, o desgaste acontece na panturrilha, que fica menos redonda, mais magrinha, não sei se você consegue entender. Além da panturrilha, as omoplatas ficam mais largas. Mas isso também não pode ser percebido. Tudo é bem discreto. Amor é um fenômeno discreto, embora haja tanta gente berrando o contrário por essa vida aí afora. 

Comentei que os músculos do pescoço também mudam? Pois é, eles ficam mais serelepes. Ér. Quero dizer, eles ficam mais suscetíveis a vibrações. E como você já deve ter aprendido, não adianta observar, você não vai perceber nada. Os cílios também ficam mais compridos e um pouco arqueados. Mas quem tem cílios pequenos não perceberá nada. Os cotovelos perdem um pouco a mobilidade, nada que atrapalhe os movimentos. As retinas vão ficando lilases. Os rins ficam mais gordinhos. A laringe ganha algumas pregas. Sim, a laringe, no pescoço, abaixo da cabeça. Favor não confundir. As cordas vocais também ganham pregas. As sobrancelhas ficam mais arqueadas. Os dentes giram um pouco na própria órbita. Os intestinos ficam mais enrugadinhos do que já são. Mas nada disso é perceptível, muito menos o que for do lado de dentro. 

De todos, quem sofre mais é o cérebro. Ganha mais ruas no próprio labirinto. O hipotálamo ganha um formato de cereja. A região do occipital - estou falando difícil? A região da nuca fica parecendo o mapa da Bolívia. A parte da testa ganha saliências triangulares. E o neocórtex inteiro fica azul com listrinhas prateadas. O coração não sofre nada, embora muita gente pense o contrário. Muita gente sempre pensa as coisas ao contrário. Acho que é culpa da refração interna das retinas, sei lá. Isso talvez nem exista. Pode ser que seja refração errada das internalidades. Das coisas de dentro. Das coisas impalpáveis da alma. Sentimentalidade que quando levada para dentro fica meio avessada. Algumas pessoas sentem avessado. Mas – que pena – sequer sabem disso. A questão é que sentir transmuta. Amar transmuta. Querer, gostar, cuidar, proteger, gentilezar transmuta. A gente se dá e se perde um pouco. Mas nada fica faltando, não há com o que se preocupar. Porque sempre tem alguém que se dá e se perde para nós. E isso que foi dado e perdido preenche o espaço daquilo que demos e perdemos. Somos todos encaixáveis e ficamos cada vez mais, quando sentimentalizamos. Sentimentalizar deveria ser modinha. Alguém faça o favor de tendenciar isso.

27 comentários:

  1. Esse é um dos textos mais lindos que você já escreveu. Sério. *-*

    O complicado é quando a gente se dá, se doa, se entrega. Não empresta, não cobra, apenas vai. E pedacinhos de nós vão. E acrescentam no outro - que fica com os sentidos aumentados. Mas quando o outro não se doa, não se entrega, não se permite ser, aí ficamos incompletos e perdidos e com aquele vazio e aquela sensação de sentidos adormecidos e ocos e ecos.

    Triste isso. Amar anestesia.

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  2. O cérebro ganha mais rua no próprio labirinto... um aprendizado poético e biológico!!!rss Adorei passar por aqui!!! Bjus
    Estava com saudades!!!!

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  3. Vou mostrar esse texto a minha irmã, ela ama mais do que come. E acho que é assim que vai acontecendo, você vai se dando que nem percebe como está, e pode acabar se desgastando, porque daqui a pouco, você vê e não tem mais nada para dar.

    Beijos, Garota de All Star

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  4. Bom dia Gabi, vou fazer como a Manu Sampaio. Mostrar este texto a um amigo que há tempos deixou de querer entender sobre sentimentalismo.
    Topo fazer uma campanha a favor da tendência do sentimentalismo.
    Mil beijos, amei.

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  5. o lance do "A gente não sabe que quando se dá se perde dentro do outro" e isso me fez pensar em quantas vezes deixamos de ser nós mesmos e aquele blá blá blá de: "será se uma pessoa consegue ser ela mesma 24hs por dia".

    :)

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  6. Gabs, que eu me lembre, esse foi um dos textos sobre amor mais bonitos que eu já vi. Sério mesmo. E amei esse trechinho, ó "Sentimentalizar deveria ser modinha. Alguém faça o favor de tendenciar isso.". Concordo contigo, porque tá em falta demonstrar importância hoje em dia (quanto a qualquer sentido de amor, na verdade).

    Mas sabe, às vezes acho que as pessoas ficam tão cismadas em se dar que esquecem que alguém pode estar se dando pra ela. Ou às vezes ficamos tão paranoicos achando que estamos nos dando que até parece que dói...

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  7. A gente se molda o suficiente para caber no outro. Somos esculpidos. Somos remodelados. Mas será que dói tanto?

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  8. É trágico, porque a vida em si é uma transmutação eterna, e pelo jeito você sabe disso. Mas eu não me importo em ir me perdendo cada vez mais, se eu puder ajudar algo ou alguém a ser mais feliz.

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  9. E ah, desculpa o "flood", mas você perguntou pra que país eu me mudei. Eu morava no Brasil até três meses atrás, aí vim pra Noruega. Mas sou brasileira e tudo mais, vim pra cá só porque meu pai conseguiu uma promoção pra trabalhar aqui por um~dois anos. :3

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  10. Caraca, mas que texto maaaara. Porque é isso mesmo, o amar está nas sutilezas, nas maluquices internas que nosso cérebro (pobrecito) sofre... é um fenômeno doido, mas bom. Feliz. Pelo menos em parte das vezes...

    Achei interessante você dizer que o coração não sofre nada. Acho que ainda estou com refração interna das retinas e por isso ainda acho que são os maiores sofredores rs...

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  11. Gabi, estava pensando, posso re-disponibilizar seus layouts? Tipo o meu, eu peguei dos seus e editei, posso disponibiliza-lo com essa versão? com seus créditos, claro.

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  12. Gab, não tenho medo de dizer que você é uma das blogueiras que mais escrevem. Quero dizer, VOCÊ É MUITO BOA, MULHER!
    Como ler um texto desses e não achar que é literatura pura, lirismo, poesia, beleza, amor, gentileza, a porra toda?
    Muito extremamente incrivelmente bom.
    Beijo!

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  13. Que texto tão doce. Eu acho que o amor tem o dom de bagunçar tudo que a gente acredita e prioriza, e sou adepta da permanente mania de organização que se há de ter para manter tudo andando nessa situação, assim como sou fiel ao ato de jogar tudo para o alto (umas duas vezes por semana, porque ninguém é de ferro), e deixar cegar o que a gente nem queria mesmo ver.

    Beijo!

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  14. Caramba, Four! Que bonito! Fiquei toda boba aqui e AMEI o último trechinho.

    Beijos!

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  15. Fazia um bom tempo que eu não passava por aqui, você não acha? Talvez você nem lembre mais quem eu sou, mas é aceitável depois desse esquecimento para com os blogs que eu tive. Falta tempo, mal tinha tempo para escrever, quem derá ler. Mas... Voltei. Voltei e de novo me encantei. Na época que eu lia todos os blogs que seguia, o seu era um dos meus preferidos. E isso não mudou!
    Quanto ao texto, adorei a forma como você abordou uma linguagem mais da anatomia humana mesmo e misturou a forma como explica o amor, misturou sentimento com realismo, entende? Eu gostei disso.
    ''Amor é um fenômeno discreto, embora haja tanta gente berrando o contrário por essa vida aí afora. ''
    Volto mais vezes!
    Um beijo, @pequenatiss.

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  16. A gente vai mudando interna e externamente e nem percebi, e depois só fica na torcida para que tenha sido para melhor, e se não foi, que passe logo.

    Gostei dessa parte: "Porque sempre tem alguém que se dá e se perde para nós".

    Ah coitado do meu cérebro, dos meus rins, da minha laringe. Coitados. Todos sofrendo as consequências pelas peraltices do coração.

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  17. Dos textos românticos que já li esse foi o melhor! Apaixonado mas sem drama, como de fato é essa coisa complicada chamada amor.

    bjs

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  18. tô encantada com todo esse blog...
    >.<

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  19. Guria que texto sensacional!
    Escreves muito bem, incrivelmente bem.
    To encantada!
    Bom fim de semana.
    Beijos!!!

    http://www.6dejulho.wordpress.com

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  20. A gente se dá e se perde, mas sempre nos dão e nos completam de novo. Sentimento é uma coisa fascinante, porque é cíclica. Temos porque damos.

    Lindo texto!

    Beijo!

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  21. Texto lindo! Perfeito! E de verdade!!! Porque é desse jeito, e acho que o que me pegou foi o final, quando você diz que não falta nada, que a gente é preenchido pelas pessoas que se doaram e se perderam pra nós. A vida é isso, todos que passam por nossas vidas deixam um pouco, levam um pouco!

    E vamos lançar campanha... SENTIMENTALIZAR JÁ! :)

    Beijão.

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  22. Mas só coisas ruins viram moda. Ou então ficam ruins quando viram moda. Com poucas excessoes. Gostei do texto. Eu achava que os sintomas não passavam de aceleração dos batimentos cardíacos, pau duro e joelhos fracos.

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  23. Mas só coisa ruim vira moda. Ou então fica ruim quando vira moda. Com poucas excessoes RS
    Gostei do texto, eu pensava que os sintomas não passavam de aceleração dos batimentos cardíacos, pau duro e joelhos fracos

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  24. Eu viajei com as suas palavras, sério. O que você tem é um dom! E dos grandes!
    E por tudo isso que você explicou que eu acho amar uma das coisas mais belas da vida. Essa doação, essa entrega. E muitas vezes nos entregamos sem esperar que ninguém nos dê algo em troca. Amamos só por amar. É tão sincero, tão espontâneo, tão cotidiano que nem notamos os efeitos que isso nos traz.
    Amei cada palavra sua, do começo ao fim, e concordo piamente.

    Beijos :)

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  25. E que verdade essa. Que somos nós do que essa perda. No final, já quase não sobra nada da gente... E ai, o que ainda temos, são as boas e velhas lembranças, depois disso, mais um nada entre virgulas etc e tal...
    ... Mas faz parte. Faz parte.

    Belo post moça. Até breve; Sem Guarda-Chuvas

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  26. Que FODA! Eu até disse isso em voz depois de ler as últimas duas frases do teu post. Acho que vou ficar mais um tempinho por aqui, me deliciando nesse blog. Nunca pare de escrever!

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