um blog de inspirações e expirações

11.1.12

a chuva das lágrimas imperceptíveis

daqui
 
Um pingo caiu dentro do olho que não piscava enquanto olhava o céu cinza. O céu fazia careta de bravo. Piscou quando a água bateu. Doeu de susto, e antes toda dor desse mundo fosse uma gota caindo num olho desavisado. Mas não olhou para o chão, que era marrom, cor feia, suja, cor de cocô, olhou para o lado de dentro da pálpebra. De olhos fechados permaneceu na mesma posição, cabeça ainda para cima, cabelos ainda assanhados pelo vento, pernas ainda dobradas em borboleta, só a câimbra tinha passado, só os pingos ficaram mais fortes. Achava que entendia o que estava acontecendo. Lá do alto dos seus sete anos, conseguia perceber as bolhas dentro de casa. As que comiam, as que dormiam, as que tomavam banho, as que lavavam a louça, as que iam para a escola e as que nasciam debaixo do pé. Não tinha a delicadeza de chamá-las bolhas, na verdade não as denominava com outro nome além do bom e já muito velho pessoas, mas ela sabia que qualquer coisa estava diferente, sabia que o calor tinha rachado de rachaduras fundas. Ela tinha lido escondido o livro da estante, o livro da família que se separou porque o pai se separou da mãe pelas brigas, que a mãe se separou dos filhos pelos choros, mas não lembrava se os filhos tinham se separado um do outro por alguma razão. Talvez não, porque alguém precisava cuidar do cachorro. Eles se separaram uns dos outros, mas continuaram morando no mesmo lugar. E talvez fosse assim com sua família também. Talvez também fossem se separar continuando unidos. Unidos significa ligados. Mas untados com qual cola? Seria uma bem superficial, tipo margarina do comercial? A mãe usava margarina do comercial para colar o bolo na forma, então poderia dar certo. Contudo, não sabia a razão. Nada acontece sem razão, que não era tola e já sabia disso, mas ninguém falava, ninguém dizia. Não notaram as fendas, o pó de parede ralado despropositado, as cascas da tinta, as formigas que entrava e saiam ou não disseram por que também estavam tristes?

Chovia e ventava, mas não tinha medo porque era só a natureza. E a mãe tinha dito para não ter medo da natureza, como quando chegou o gato, que era pequeno, mas fez muito estrago logo quando recebeu o primeiro afago. O arranhão ardeu muito e resolveu ali enquanto o olhava que não ia querê-lo porque não ia desperdiçar sentimento com quem não sabia nem gratidão, quanto mais sentir do mesmo tamanho que era sentido. E se afastou por uma semana, chegando quando o gato saía, e saindo quando o gato chegava. Era uma espécie quase imperceptível de guerra movida a indiferença entre uma menina e um gato mal educado. Talvez não tivesse tido mãe. Até que depois dos sete dias, a dela, porque ela tinha, foi dizer-lhe que tentasse novamente, que o gato era novinho e estava só, precisando de amigos, e que os irmãos já estavam velhos e quase não paravam em casa, e que ela por ser a mais gentil o trataria com zelo, quem sabe carinho, porque o gatinho não tinha mais família. Então havia mesmo pensado certo, ele não tinha mãe, por isso era ranzinza, porque não teve quem ensinasse que precisava ser educado com as pessoas, e também porque era sozinho e solidão é ruim. Não gostava quando ficava sozinha nos dias em que a TV não passava nada legal e os livros não convenciam, ou quando acordava no meio da noite e não conseguia dormir novamente, então ficava de olhos no teto. Nesses momentos se sentia muito só porque todos dormiam enquanto a casa inteira ficava quietinha, muito silenciosa e respirar era penoso porque quebrava o silêncio largo, embora fino, capaz de ser desfeito com um simples suspiro. Então era isso: coisas largas eram frágeis. Largas queria dizer grandes, sua família era grande, mãe, pai, irmão, irmã e o gato. Tinha uma família larga, portanto frágil. Sua família ia rachar e se partir em bandas. Alguns, talvez vários, pedaços. A tristeza aumentou dois passos, mas não chorou. Quer dizer, enquanto estava pensando essas coisas, continuava chovendo e ventando e ela continuava sentada, com as gotas caindo na cara, então achava que não estava chorando, mas se estivesse também não poderia ter certeza.

15 comentários:

  1. Seguido leio o teu blog, interessantes teus posts.
    Te escrevo para divulgarmos nosso blog, ainda está em processo de expansão. Se quiser nos acompanhar e dar umas risadas: www.o-cercadinho.blogspot.com
    Será um prazer te ter nos visitando lá. O que é O Cercadinho? Segue uma apresentação para te situares. Em cada relacionamento afetivo, os envolvidos ficam restritos a um espaço, O Cercadinho, onde acontecem as interações. Em algumas fases, está cheio de "queridas", mas em outros, quase vazio. O Cercadinho é o resultado das conquistas amorosas, onde cada um preenche à sua maneira e gosto. Pode ter o critério de cotas e uma de cada: loira, morena, mulata, ruiva e/ou japa. Com faixas etárias e tipos variados. Até monogâmico com apenas uma mulher selecionada.
    Neste blog, somos cinco homens escrevendo relatos e histórias, sem pretensão literária sobre O Cercadinho. Heitor faz o estilo confuso e rebuscado. Apaixonante e cafajeste, este é Wanderlei. Já Cebola faz o estilo 100% sincero e sem rodeios. Seco, objetivo e um pouco bagual com sentimentos, assim é Iberê. E Marcão, bom, esse é trash total. Entre no nosso Cercadinho e boa leitura.
    Iberê

    ResponderExcluir
  2. Lindo demais! "Eles se separaram uns dos outros, mas continuaram morando no mesmo lugar", e como isso acontece, mais do que imaginamos. Talvez pois não paramos pra pensar tanto quanto a pequena personagem de seus escritos. Que um dia será larga, grande, portanto frágil também.

    ResponderExcluir
  3. "...que a mãe se separou dos filhos pelos choros, mas não lembrava se os filhos tinham se separado um do outro por alguma razão" e um soco no meu estômago.

    ResponderExcluir
  4. As vezes quando a dor é grande confundimos chuva com lágrimas. São tantas que molham a roupa, como andar lá fora sem proteção do guarda-chuva...
    Mas quando param de lamber a face, percebe-se que a chuva também parou...
    Bjos

    ResponderExcluir
  5. Adorei o texto. Um jeito muito bonito de contar uma situação comum. Beijos

    ResponderExcluir
  6. Mafiosa linda <3

    Amei amei amei o texto mas ele cortou meu coração. As crianças são mais sensíveis, sempre sentem o que está acontecendo antes dos adultos, e você retratou isso de um jeito tão poético. Fiquei suspirando.

    beijos

    ResponderExcluir
  7. O cinza é bom,às vezes.
    Adorei teu espaço. Sigo-te.
    Visite-me se quiser

    beijos
    http://mudancapontocom.blogspot.com

    ResponderExcluir
  8. Lindo texto. (:
    Estou seguindo seu blog. se poder , dá uma olhada no meu. Beijos,

    http://depoisdeumdianormal.blogspot.com/

    ResponderExcluir
  9. "Quer dizer, enquanto estava pensando essas coisas, continuava chovendo e ventando e ela continuava sentada, com as gotas caindo na cara, então achava que não estava chorando, mas se estivesse também não poderia ter certeza."
    Oh.

    ResponderExcluir
  10. E sempre as lágrimas são comparadas com a chuva....Deve ter um valor simbólico: Do mundo acabado, da chuva limpando...

    ResponderExcluir
  11. é melhor não ter certeza. mesmo nas coisas tão singelas e inocentes é melhor não se ter certeza.

    ResponderExcluir
  12. Gostei muito dos textos e, particularmente, esse me chamou mais atenção. Gostei da tua escrita, da forma como escreve, e sou uma nova seguidora, risos. Deixo em aberto pra você dar uma olhada no meu também, ficaria grata! Parabéns, beijos!

    ResponderExcluir
  13. Tudo que é grande é fragil. Meu Não sei o que dizer, quer dizer dizer fiquei encatado com esse texto, por isso sem palavras.

    ResponderExcluir

♥ Você pode comentar usando apenas seu Nome e Url: selecione a opção no menu suspenso "comentar como".

♥ Alguns comentários podem não ser aceitos, dependendo do cunho da mensagem. Seja gentil na blogosfera.

Obrigada por comentar. Sua visita e opinião são importantes para mim.
Volte sempre!

 
© 2009 - 2016 . todos os direitos reservados