um blog de inspirações e expirações

25.7.10

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Pior mesmo é a saudade, não vou mentir. Acordar, sair de casa, andar na rua, olhar as pessoas, voltar para casa, viver minha rotina com a sua lembrança. De tão presente, vive cobrindo meus passos com os próprios, como se fosse um cachorro lambão. É a sua lembrança, mas a vejo diferente: magra, cabelos escuros pouco abaixo dos ombros. E é muda. Às vezes me sorri, mas é só. Bom é que ela não me incomoda com assuntos chatos e completamente dispensáveis quando não tô com vontade de ninguém; o problema é que ela é latejante, e apesar de quieta, não me deixa esquecer um segundo sequer. Já perdi as esperanças de voltar a viver só, de ter o apartamento só pra mim outra vez: esse fantasma está sempre atrás de mim, pisando os meus passos. Tem dias que é até minha amiga. Tem dias que ouve música. Mas dói.

E ainda tem o amor. O que faço com ele agora? Tá aqui, ocupando espaço, sem utilidade, sem fundamento. Tá aqui, parado e pulsando.

Ou me quer e vem, ou não me quer e não vem.
Mas que me diga logo pra que eu possa desocupar o coração.
- Caio Fernando Abreu

Tem dias que penso em sair correndo pelas ruas, aos berros, braços pra cima, não sei... Não sei... Só sei que queria tirar de mim essa sua ausência tão presente. A auto-ajuda (e a auto-piedade, talvez até o orgulho ferido) me diz(em) pra eu sair, olhar o mundo, conhecer pessoas, mas acho isso tudo o clichê mais clichê de todos os clichês, que geralmente costumam ser verdades, mas esse de tão que é, não funciona. Tô convencido que só o que posso fazer é ir vivendo, enquanto espero o tempo empoeirar a sua materialização que vaga pelo apartamento, às minhas acatas.

O vaso marrom – que você pintou de verde não sei por que diabos: ficou horrível! – com as florzinhas pequenas ainda tá lá na janela, olhando o céu de nuvens cinza que impera lá fora. Sempre reclamei do céu cinza, hein?, e dizia que um dia mudaria pra uma cidade pequena, coisa de 20 mil habitantes, no máximo, mas isso é outra coisa da qual me convenci: nunca vou me mudar. Não poderia ir e não levar o ridículo vasinho verde das flores pequeninas; e levar seria desperdício, numa cidade pequena – geralmente cheia de verde por todos os lados, como são as cidades pequenas - não chegaria nem a figurante. Incrível como esse bendito vaso me lembra você, de todas as maneiras; parece que ele grita quando estou fazendo alguma coisa, porque de repente me distraio e lá estou eu, olhando pra ele. Talvez ele pisque num neon lilás e vermelho e eu nunca tenha percebido. Todos os dias coloco água no vasinho, de manhã e a noitinha. Acho que nem precisa tanto, mas sei lá, habituei.

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Preciso sair mais? Quem disse? Estou bem, perfeitamente bem, eu e a minha solidão. Ela me faz a companhia que você não quis. Mas não vou te atacar por isso; não é recalque, é só saudade. (...) Uma coisa bonita? A nossa sintonia. Parecia que dançamos o mesmo compasso, mesmo quando não estávamos perto um do outro. Os gostos diferentes, mas solidários e gentis o suficiente para caber no mesmo convívio com aquele esquisito tão contrário. As risadas que riam e (se) riam no mesmo espaço. E a saudade – sempre ela - mas que é só minha.

Tem dias que me pego pensando se você encontrou coisa melhor. Eu devia ser orgulhoso e soberbo o bastante pra dizer que o seu melhor sou eu, mas isso soa tão falso que até me constrange, mesmo eu estando sozinho. Sempre fui meio bobo, hã? É, não escondo. Não me orgulho, mas também não me envergonho. Você mesmo dizia que os tímidos fazem mais sucesso... Nunca me convenci completamente disso, e agora menos ainda. Tanta coisa anda despertando minha dúvida, minha desconfiança, minha insegurança. Ando frágil. É isso que o amor faz com a gente? Acho que sim, mas só quando nos deixam a deriva. Outro dia, fui lá na Fratterllo, comprar aquele pão recheado, e numa das esquinas do caminho, uma senhora ficou me olhando. Não era paquerando ( eu espero ) ou se insinuando, era como se soubesse os dias que estou vivendo. Eu tenho medo de gente que sabe demais, como pode os outros saber mais do que eu, que habito dentro de mim? Fiquei assustado, enquanto ela me olhava com um pequeno sorriso que dizia eu sei o que você está vivendo. Não me ache ridículo, mas juro que quase saí correndo. A solidão é bicho ruim: estou me tornando um sociopata. Ela não tinha cara de cartomante barata, aliás, nem tinha cara de cartomante. Talvez fosse apenas uma mulher que já passara pelo mesmo e, portanto, já conhece os sintomas. 
Já postei alguns trechos aqui no blog, por isso, qualquer semelhança não é coincidência, ok pessoas? Esse texto não tem uma definição, não nasceu para ser alguma coisa, só nasceu, e eu nunca continuei, mas mantive guardado por gostar dele. Talvez um dia eu continue, talvez não.

23 comentários:

  1. own.

    é, é só não abandonar de novo que tá perdoada.

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  2. Tudo hoje tá com gosto de saudade.
    E sim, o cinza é uma graça.
    Eu que queria um tonzinho pastel, só pra variar.


    Beijo.
    :*

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  3. fiquei feliz da minha distração ter acabado e me deparar com algo tão bonito de se ler, onde eu pudesse aterrissar em paz.

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  4. ei japinha, tá muito bom, sempre quando eu venho aqui sai daqui com um sorriso de coçar as orelhas de tão grande, muito bom!

    beijos na tela,
    G

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  5. A saudade é a dor pelo que se foi, mas que vive lá dentro. Vez em quando a dor lateja intensamente, parecendo querer se fazer lembrar, como se fosse possível esquecer. Têm pessoas que se tornam pedaços de nós e cortar um pedaço da gente dói tanto...

    Beijo doce!

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  6. Acho curioso o tamanho do espaço que o vazio da ausência presente. Sempre assim, aquela nostalgia aguda e o não saber o que fazer com ela.

    Bonito texto. =*

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  7. que bom teu blog.
    ótimo teu texto, muito bom.
    Tenha uma feliz semana.
    Maurizio

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  8. Ah, pára que seus layouts são bem melhores do que os meus. Também não sei mexer muito nesse "trem", mas de tanto fuxicar a gente vai melhorando, né? E tenho TOC com layouts e enjôo com facilidade, parece o mesmo problemiha da senhorita. Amo "bolinhas", tanto que poucos dotes é um trocadilho com polka dots, em inglês.

    ________________________
    Texto intenso.

    E quanto a citação do Caio F, mais uma coisa em comum.

    "Que seja doce"

    Beijos, Gabi!
    Muack!

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  9. E hoje tudo cheira saudade...

    Pelos poros da pele sentes uma inquietude inflando os pulmões como se fossem explodir...
    Isso dói... e como dói!!

    Amei o texto!!
    Mil beijos

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  10. adorei o texto da saudade :)

    se cuida :*

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  11. Saudade dói, e muito! Mas é um belo sentimento. Afinal, só sentimos saudade do que foi bom e importante para nós, mesmo que não volte mais e nos machuque por causa disso.
    Seu texto é muito lindo! *-*
    Beijos =*

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  12. Meu,,, que coisa loka... Vou te contar pq se acontecesse com alguém enquanto lê um lance meu, eu gostaria de saber, rs...

    Alguns segundos antes de começar a ler seu texto meu player iniciou um pout-pourri que Yamandú Costa gravou com Paulo Moura,,, mew, puta sinergia!

    Demais!
    ----------------

    Acredito muito na vida própria dos textos,,, sairá quando não se conter mais -.0

    Bjs e reveladoras invenções!

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  13. Só posso dizer que mexeu comigo daquele jeito que a gente só quer se enfiar debaixo dos cobertores com xícara de chá, livros grossos e canções britânicas tristes.

    É isso. E posso apostar que entendo. Porque mesmo lá no meu refúgio a saudade vai estar fazendo companhia.

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  14. "Chega de saudade a realidade é que sem ela não há paz, não a beleza, é só tristeza e a melancolia que não sai de mim, não sai de mim, não sei."
    Foi esse trecho que seu texto me lembrou, de uma música que eu gosto muito e um texto que eu gostei muito também.
    :)
    Beijos

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  15. Seu texto mexeu tanto comigo que fiquei sem saber o que dizer. Sério.
    Eu só queria saber escrever histórias que não me envolvessem e expusessem tanto, mesmo que assim eu fique mais leve.

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  16. .. e ah, se eu fosse você, continuaria a escrever um texto. Acho que dá pra sair uma bela história daí.

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  17. Putz, o que dizer depois de um texto assim? Acho que estou tão pasmo com a mesclagem brilhante de palavras que não sei ao certo o que dizer, por parecer cliché demais.
    eu me senti no eu lírico dele, eu me emocionei como jamais havia me emocionado antes com um texto (ou, não que eu me lembre)

    sinceramente, palavras não cabem nem um pouco pra dizer o que eu senti/vi nesse texto.

    meus parabéns!

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  18. bateu uma vontade de vir aqui e dizer que estou com saudade de você.! (:

    beijas gabizita :*

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  19. è aquela solidão acompanhada com lembranças e tudo mais que só um coração machucado e cheio de incertezas pode criar.
    È assim mesmo, como você descreveu, e só quem passou sabe.

    beijos e bom fds.

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  20. Adorei conhecer seu blog. sou sua mais recente seguidora. visite-me ficarei muito feliz..
    Abraços carinhoso
    Preciosa Maria

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  21. Eu conheço e reconheço esses 'sintomas'. Droga de saudade que não passa. Amor que de tão grande, e agora inútil(?), não sabemos mais o que fazer com ele... E aí me apegamos as pequenas coisas, tipo um vaso. :|

    Beijo!

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  22. um lindo texto, cheio de sentimentos alheios ao coração..

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