um blog de inspirações e expirações

21.5.10

mariana sorriso de cor

Para Blorkutando.

As malas perto da porta jogaram a decisão na minha cara: ela iria embora. Não sei se eu estava ficando insensível, mas a verdade é que não me importei muito; depois de um tempo passaria. Provavelmente eu sentiria falta dela nos quatro ou cinco primeiros dias, mas depois passaria.
Fui feliz com ela, enquanto duramos. O nosso pra sempre durou três anos, três anos bons, mas que acabaram. Pedi para levá-la até a rodoviária – iria para o interior, casa de uma tia que desconheço - mas ela não quis, disse que queria ficar só, pensar e qualquer coisa a mais, mais tarde veria o que fazer. Me pergunto se sentirei saudades de nós, do nosso tempo, do que vivemos, das des- e a-venturas. Sei que a cor dos cabelos dela me fará falta, sim, disso tenho certeza; vermelhos e delatores da personalidade bêbada que Mariana tem. Talvez também sinta falta dela batendo o pé na soleira da porta, impaciente, enquanto agitava as mãos para um lado e para cima, um gesto exclusivamente dela. No mais, lembrarei com carinho do nosso tempo juntos, pois o amor, eu sei que esse acabou, e ela também sabe, soube muito antes de mim, por isso foi embora. A despedida foi breve, fria, se cuida. Admito que o prédio vai ficar desbotado sem ela por aqui, sem graça, porque ela tem um brilho encantador, e a cor do sorriso de lábios cerrados e tortos para a direita dela deixam a gente deslumbrado, com cara de bobo olhando para ela e fazendo de conta que está entendendo a piada (piada?) que ela está contando. Mais um pouco e qualquer um é capaz de colocar as mãos em punho segurando o queixo, feito criança, só para apoiar o olhar.

Uma vez, Mariana meteu-se aqui no prédio vizinho, nunca entendi bem o que aconteceu aquele dia, também já faz tempo e não lembro direito. Ela entrou esbaforida, meio correndo, meio voando, reclamando que tinha esquecido não-sei-o-quê do trabalho dela, subiu e foi derrubar a porta do 213 com batidas apressadas, e juro que fiquei surpreso por ter me respondido -Não quando perguntei se ela não tinha chutado a porta. Teria sido engraçado, senão tivesse sido vergonhoso. Mais tarde, fiquei sabendo por ela toda a história: gritava enquanto batia na porta, Filipe, abre essa porta, droga!, e uma criança loira de pijama e iogurte na mão abriu a porta com uma cara assim ó, de quem diz e essa louca vai invadir minha casa e roubar meu vídeo-game?! Dessa parte nunca esqueci, viro um origame de tanto rir todas as vezes que relembro essa história. Quem não gostou muito foi a mãe do garoto: disse que era falta de respeito uma louca bater na porta alheia, aos gritos, ainda mais se essa porta alheia fosse a dela. E disse mais: que chamava a polícia, e nem que fôssemos todos parar na delegacia, mas ela iria calar a matraca ruiva.

(...)

Mariana levou o álbum de fotografias. Não queria que ela o tivesse levado, eu gosto dele. Não que eu ficaria folheando e re(vi)vendo as lembranças, só não gosto quando tomam minhas coisas, ela nem me perguntou se eu não queria ficar com ele, ou com cópias das fotos, nada. Levou e eu só descobri dois dias depois. Bem, já faz um tempo que ela foi embora, 67 dias, e não ligou. Pensei que fosse ligar, pelo menos para pedir que enviasse alguma coisa que eventualmente ficou esquecida. Não ligou, nem mandou carta, nem recado para a secretária, nem aviso, nem cartão-postal, nem um bilhete dizendo que estava morrendo de tristeza e que queria voltar para casa. Pensei em fazer isso, para ocupar o espaço que ficou vazio por ela não ter dado notícia alguma, mas meu orgulho/tristeza/Beto me impediu. Droga de Mariana que foi embora e me largou. Pensei que não sentiria falta dela por tanto tempo, já deveria ter passado, não? Ela foi embora, levou as malas, os cabelos vermelhos, o sorriso de cor, o álbum de fotografias e me deixou um buraco aqui. Um buraco que tinha que diminuir, mas que só aumenta porque alguma coisa continua cavando e revolvendo e cavando e revolvendo. Não sei onde guardar minhas lembranças dela.

Esses dias, passei em frente a uma livraria, e na vitrine li o título de um livro em lançamento: Paixão, e eu não teria sentido nada anormal se tudo a minha volta não insistisse em me lembrar aquela mulher, até mesmo a porcaria do autor de um livro de nome barato que ela tanto gosta.

29 comentários:

  1. Comentário lindo,Gabi! Adorei a flor, Flor!

    Jajá leio o teu post!
    ;***

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  2. Um buraco que tinha que diminuir, mas que só aumenta porque alguma coisa continua cavando e revolvendo e cavando e revolvendo. Não sei onde guardar minhas lembranças dela.

    realmente eu sei o que é passar por isso, amei, você escreve muito bem!

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  3. Que coisa mais linda, Gabi. Eu sempre acho mais fácil me colocar no lugar deles do que no meu. Acredito seja a forma como eu gostaria de ser lembrada, rs.

    Um beijo.

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  4. é o tipo de buraco que com tempo cospe as lembranças para fora..

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  5. Nossa, menina... Adorei o seu texto. Você falou de maneira sutil sobre como as coisas mudam depois de uma paixão, mesmo para pessoas frias que achavam que isso nunca aconteceria. Você escreve muuuito bem! Gostei muito, mesmo! :)

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  6. Que lindo texto.
    eu ameii Gabi
    paixão é uma coisa mesmo. mas tão bom.

    Beijooo :**

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  7. e quando queremos fechar esse vazio, as saudades insistem em aparecer para aumentar esse vazio.
    tal vez, com o tempo, tudo passe.

    se cuida :*

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  8. Nossa, eu sempre me encanto por aqui...
    Tenha um lindo final de semana!
    Beeijo Flor

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  9. Que coisa linda de se ler. Paixão é mesmo um sentimento cheio de vazios no fim. O que fica é saudade. Pudera, viver sem ela, JAMAIS.
    sorrisos, flor.
    ;)

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  10. paixão, de um certo ângulo, chega sempre a ser superficial.


    um beijo!

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  11. ººº
    Estou siderado, não sabia que havia tantos tons de frio, rs

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  12. Que texto leve. Um conto muito carinhoso. Tu sente ser acariciado com as palavras tão confortantes. É amor bonito. Paixão que reside nos detalhes e momentos vividos. As vezes nos completa inteiramente.

    Conto encantador sim. Nos envolve com emoção.

    Beijo doce.

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  13. Já me disseram, diversas vezes, que quando já não podemos ter uma pessoa que nos é especial ao nosso lado resolvemos valorizá-la. Sempre assim...

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  14. Gabi, gostei demais!
    Adorei o estilo de escrita que você adotou, o eu-lírico masculino, ficou tão real! Me lembrou muito uma música que eu amo de paixão, e sempre quis escrever um conto em cima da historinha, mas nunca rolou. Chama-se "Ela Se Foi", da banda Gianoukas Papoulas.
    Beijos

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  15. Ah, Gabi, como escreves bem! =)
    É sempre delicioso ler-te.
    Beijos.

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  16. Tô virando sua fã.
    Gostei muito da delicadeza, da sinceridade, da mistura de saudade com ruptura, a paixão, da consideração.

    Muito bonito!

    ;)

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  17. Adorei o texto. Até chorei quando termnei de lê-lo, pois acontece a mesma coisa comigo. meu amor me deixou e tudo, qlqr ocisa insignificante melembra ele. Quando há desamor, tudo que queremos esqeucernos vem à tona ;/ e faz doer ainda mais o coração!
    aorei o texto, lindo demais. beijos

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  18. aaaaaaaah! que lindo.. a parte do autor de um livro foi a minha preferida. ôoh, coisas e pessoas que vem na minha mente.. aiai.

    bjbjbj ;*

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  19. Do nada achei e quando percebo, um post com uma protagonista minha chará! (risos) Queria ser um pouco assim, Mariana. Sair sem deixar rastros. Gostei muito!

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  20. maravilhoso foi ler isso .. me senti como o próprio,imaginando como seria perder um homem...

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  21. A senhora escreve muito bem.

    Ah, tem conseguido manter o layout, parabéns.

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  22. Gabriela.
    o texto ficou incrível!
    Bem escrito e cheio de ótimos detalhes.

    Beijos!

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  23. Que texto foi esse? Triste, real e perfeito! sentimento à flor da pele.

    Poucas pessoas conseguem expressar com tanta facilidade e calma os sentimentos de um Homem, "largado" [porque, de fato ele não o foi.]

    muito bom, gostei mesmo, meus parabéns!


    ps: novo blog http://masqueporravei.blogspot.com

    enfim ..

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  24. Amei :)
    Bjão e ótimo feriado.

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  25. E o sorriso que ficou pregado no seu coração grudou no dela tb!!!!

    Leve, intenso!!!

    beijo flor

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  26. O mais bonito do dia! Extremamente agradável de ler. Parabéns.

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  27. o amor vai cavando buracos cada vez mais fundo, mesmo sem ele ter nome ou dono, mas tem pra sempre com data definida.

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