um blog de inspirações e expirações

25.1.10

heart mobile

Eu insistia em carregá-lo apertado nas mãos. Era ridículo esse medo de perdê-lo, mas não queria que ele ficasse do lado de dentro, não via razão para que ficasse sempre escondido, por isso comecei a andar por aí o segurando entre a palma da minha mão e meus dedos, que vira e mexe, o apertavam carinhosamente. Um dia alguém me disse que eu podia me distrair e derrubá-lo, e não preciso dizer que isso me deixou apavorada. É lógico que eu sabia que meu coração era coisa frágil, porque ele já tinha sofrido antes, chorado até desidratar e se recuperado tantas vezes – passei a acreditar que ele foi treinado para essa função. Isso o deixou meio mole, meio necessitado de uma babá. Mas uma babá para um coração era uma situação um tanto inusitada nesse mundo moderno de clichês sem graça; desisti da ideia, eu mesmo teria que cuidar dele, afinal era meu não era? A partir disso, comecei a criar listas de coisas a fazer e a observar, para tornar viável a minha ideia de cuidar do que tinha restado desse meu jovem coração velho. Às vezes eu pensava nele como se fosse um ancião de costas curvadas, que andava muito, muito devagar. Pois, se sabia o que era melhor para nós (ele sempre sabia) devia ser um senhor muito velho, como o tempo. Talvez fossem até amigos que se viam vez ou outra. E apesar de o imaginar velhinho, não havia rugas, nem rabugice alguma (não que todos os velhos sejam rabugentos, mas tem sempre um na nossa rua). Também não tinha nenhuma amargura. Mas como, dirão, falar de um coração que – exageradamente – anda se despedaçando a cada passo, se é tão jovem? Pois não tem nem duas décadas de vida. Verdade: não tem nem duas décadas de vida. 18, em abril 19. Mas de tanto que já sentiu e aprendeu, encarquilhou-se um pouco nas curvas. Me orgulho mesmo de dizer que tenho um coração conhecedor das dores, das minhas, das dele, das dos outros. Porque se a gente olhar pro lado com meio mililitro de carinho, vai ver que tanta gente chora, em meio a sorrisos incríveis, e que a dor que parece sem tamanho não é só nossa. Meu Deus, o ser humano é egoísta até com os sentimentos que podiam muito bem ser descartáveis, hã?!
Sim, mas há muito abandonei o propósito desse escrito, que era apenas explicar a solução que encontrei para nem esconder nem expôr o meu parceiro de guerra: decidi apenas pendurá-lo num cordão e mantê-lo por dentro da camisa. Sei que do lado de dentro, no lugar de origem, ele ficaria mais quente, talvez mais protegido, mas realmente não gosto da ideia de escondê-lo, e creio que já tenha dito isso mais de uma vez. Não sei bem porque diabos quero deixá-lo a mostra, talvez para exibi-lo, para mostrar a todos que é um sobrevivente, que aguentou as tempestades sempre firme – e sem guarda-chuva. Meu coração é um herói, desses modernos, sem capa nem visão raio laser, que possui apenas um super poder, só dele, mas que os outros corações do bairro já começaram a usar. Não desistir faz uma diferença bem grande, diria eu, a níveis quilométricos, mas isso não faria muito sentido na frase. Bem, um beijo a você que fica, porque me vou, levando um Tum Tum no pescoço ao invés de no peito, mas quem disse que pretendo ser mais um simples mortal dramaticamente igual a todos os outros?


OBS.: Gramaticamente, o correto seria ‘mobile heart’, mas eu gosto do som de ‘heart mobile’ e, sendo para fins informaticamente literários, acho que não vão contestar, né?

25 comentários:

  1. eu tenho um desse, que eu pendurei numa correntinha, talvez porque meus sentimentos não caibam num coração só de carne e sangue, tem que ir pra fora, ser leve no mundo.

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  2. eu ainda prefiro carregar o meu dentro do peito, sou muito esquecida e com certeza não iria demorar muito pr'eu esquecê-lo em uma bancada qualquer .-.

    talvez você queira mostrar pr'as pessoas que de fato tem um coração e que elas precisam aprender a valorizá-lo ou ao menos cuidar bem dele. vásaber.

    __
    ps:eu deletei meu orkut e sinto falta de conversar com você, comofas?! =/
    ps²: te adicionei no we♥it '-'

    beijas gabi :*

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  3. Acho que o tempo passa mais rápido para os corações, feito cachorro, sabe? Porque eu também acho que meu coração já está na meia idade. E ele anda tão cansado, tão sem energia pra nada, que eu prefiro deixar do lado de dentro, pra ele não ressecar mais do que já ressecou chorando (vai que de tão seco ele racha?)

    Eu acho que mudei mesmo minha forma de escrever... Não sei porque nem quando, mas passei a escrever o que dá na telha, com mais naturalidade. Às vezes tenho até vergonha de postar, mas aí mando tudo pro inferno haha. Fiquei feliz que você percebeu e mais feliz ainda por você ter gostado! Eu sou a dona insegurança, rs, e como adoro o que você escreve, significa muito pra mim :D

    :* :*

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  4. cada um é único, a gente sabe. mas bonito mesmo é ser único entre tantos únicos. né isso?


    beijos!

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  5. o meu ainda tpa dentro do pito, mas ele vira e mexe é roubado ou magoado, e além disso, meus sentimentos são grandes demais pro tamanho do meu coração. e agora, comofaz?!

    bjinhos :)

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  6. meu coração é sobrevivente também.
    mas ele nunca gostou de ficar aqui dentro, não.
    tá sempre se empoleirando pra saltar na mão dos outros.
    Ele não gosta mesmo de ser meu.
    unf :/

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  7. antes de tudo devo dizer que amei o texto. acho que é um dos melhores que já li pela blogosfera.

    o coração de quase todo mundo que já amou nessa vida tem um quê de sobrevivente. os outros que não tem isso é porque não aprenderam a nadar nas águas das nossas enchentes e acabaram se afogando.

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  8. HAhaha, adorei o final, e vai ver essa é a melhor solução. Cara, encarar o coração de boa, como um cordão que às vezes está dentro da camisa, às vezes está fora.

    Muito bom. Adorei :)

    ;**

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  9. ela fotografa melhor que nós porque nem sabia que estava a fotografar, mas ficaram bonitas.
    ah obrigada, não gosto dji você(?)

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  10. Acho que vou comprar um para mim, porque com mais de duas décadas de vida (22 anos) o meu está que é só o pó, irrecuperável eu diria. Vou roubar o coração de alguém por aí!! rs rs

    Bjos

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  11. viva os pais.
    eu sei eu sei, tava a gozar B)

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  12. aii que lindo texto.
    viajei
    sério!
    eu nem sei onde carrego o meu...

    Beijoo super.

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  13. # já disse que acho extremamente 'seu' esse jeito de não dar espaço depois da vírgula?
    (nunca havia notado que quase ninguem não dá espaço depois da virgula UHAUHAHU)
    e em relação ao seu texto bom,o nosso coração esta sempre bem sabia?é nossa cabeça louca que o deixa mal.

    ainda kero ver um livro seu *-*
    bjooos

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  14. Porque se a gente olhar pro lado com meio mililitro de carinho, vai ver que tanta gente chora, em meio a sorrisos incríveis, e que a dor que parece sem tamanho não é só nossa."

    Impossível não rolar uma identificação com o que li. Meu coração é calejado, mas ele ainda vai aguentar muitooo dessa vida. =) amei!

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  15. AMEI!
    acho que se exibirmos nosso coração por ae, seria como um trófeu, um prêmio de uma guerra que ele sobreviveu, assim como a gente! E que tá sempre pronto pra outras guerras!
    Adorei mesmo!

    beijão ;*

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  16. Por que você não muda mais o layout? Está passando bem? Deve ter acontecido algo grave...
    :B

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  17. Então você também é abriliana =]
    Talvez eu também deve pendurar meu coração o pescoço e andar com ele por aí... só pra que todo mundo veja que ele bate e eu sinto.
    Um beijo, moça.

    sim, eu sosseguei. Até onde é possível.

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  18. Seria melhor eu ficar calada, já que eu não tenho nada o que dizer sobre o texto, mas acho que vale dizer que eu soltaria um palavrão enorme aqui se não tivesse os bons modos de te dizer apenas que fiquei estupefata!

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  19. Texto muito interessante.
    Uma ótica bonita de como levar um coração, com todas as suas consequências. O que proporciona e deixa de causar.

    Um coração assim é sempre liberto, está sempre observando, amando, cuidando do ar, monitorando cada passo seu, te aconselhando sempre...

    Carregar na mão o coração é viver em cima de uma fina e tênue corda.
    Porém é o nosso sentimento que torna a nossa vida muito mais equilibrada.

    Bonito mesmo.

    Beijos
    :)

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  20. Lindo texto.
    O meu guardo no lugar de sempre, mas com um escudo... E vou pensar melhor nisso e quem sabe "criar" um texto baseado no seu.
    Bjitos!

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  21. coração souvenir, sempre penso isso dos exibicionistas. acho mais como um prêmio. se for realmente válido, te mostro o meu.

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  22. #PutaQuePariu isso aqui ficou di genius,,, rs

    Essa analogia foi chaaant demais! Mto chant!

    Parabéns,,,

    Bjs e geniais invenções!

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  23. Lindo texto!

    "Sei que do lado de dentro, no lugar de origem, ele ficaria mais quente, talvez mais protegido, mas realmente não gosto da ideia de escondê-lo..."

    Porque eu não consigo seguir sem transbordar, sem me mostrar e sem mostrá-lo... nem que seja só pra mim. Só os sobreviventes vivem de verdade. =*

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  24. Eu nem sei onde levo o meu! de tanto morrer e renascer das cinzas, acho que criou asas e fugiu como a própria fênix.


    eu, a cada dia que passa, amo mais seus textos *-*
    gostaria de, algum dia, conhecer a escritora por trás de tais textos!

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